Quebradas e periferias de SP
As imagens de Léu Britto mostram como a população que vive às margens, nas quebradas e periferias da cidade de São Paulo, desenvolveu estratégias para sobreviver e se adaptar às inúmeras adversidades, diante de um contexto repleto de ausências. As pessoas se viram com o que têm e, se não têm, continuam em frente, se viram mesmo assim, e fazem acontecer.
Léu Britto lança um convite amargo a todos nós, ao propor que cada um experimente nascer Pobre, Preto e Favelado (sim, com letras maiúsculas) e tente se colocar no lugar dos milhões de brasileiros que vivem nessas condições em todo o território: verdadeiro panorama distópico marcado pela assimetria entre o que o poder público deveria oferecer e o que possuem as comunidades que vivem nas bordas das grandes cidades. Parece oportuno e urgente que renovemos nossa atenção aos indivíduos muitas vezes esquecidos. As fotografias da série “A gambiologia da sevirologia” apontam para essas desigualdades e nos incentivam a uma reflexão sobre nosso papel como cidadãos.
Cada imagem evoca um fato concreto e mostra que, apesar de todas as inexistências presentes, os moradores se adaptam na busca por um propósito. É o caso da menina se banhando na piscina em um dia de sol no Jardim das Gaivotas, no bairro do Grajaú; da moça lavando o cabelo na Favela Monte Azul; da cozinha no Jardim Julieta (zona norte de São Paulo). As cores fortes, utilizadas em abundância, conferem emoção às cenas registradas. A sequência de imagens inquietantes se contrapõe à beleza da composição criada cuidadosamente pelo artista: ora com vistas fechadas, nos transportando para a intimidade do dia a dia de seus moradores; ora com panoramas fartos, que expõem a dimensão das comunidades retratadas. O senso da narrativa e a investigação visual apresentados pelas fotografias de Léu Britto cumprem seu papel ao desempenhar na imaginação do espectador a possibilidade de uma reforma particular e interna em prol de uma sociedade mais justa.
Marly Porto
Curadoria e pesquisa fotográfica

