Rogério Vieira

Somos todos alvo aqui

“Somos todos alvos aqui” é um projeto de retratos cru e direto, que nasce com a intenção de manter vivo o debate sobre a violência policial sofrida por pessoas das periferias e favelas do Brasil – pessoas que na sua maioria são de pele preta.

 

Ferramentas e acessórios do dia a dia são usados como metáfora, e se referem às mortes de pessoas assassinadas por policiais que confundiram uma ferramenta com arma de fogo. Em uma segunda-feira, 17 de setembro de 2018, Rodrigo Alexandre da Silva Serrano foi baleado por policiais que teriam confundido seu guarda-chuva com um fuzil. Qual a cor da pele do Rodrigo?

 

Escolhi fotografar com uma câmera de médio formato, e foram usadas em média cinco a seis poses para cada personagem. Todos os fotografados nesse ensaio são da cidade onde vivo, São Paulo.

 

Somos todos alvos aqui* por Valdir Zwetsch, Jornalista

Quem conhece as periferias das cidades brasileiras sabe que, apesar das mazelas e do abandono do poder público, ali pulsam a solidariedade, a fé no futuro, a esperança e a alma de um povo que constrói palmo a palmo seu espaço de sobrevivência e afirmação. No sentido contrário, recebem injustiça, preconceito e brutalidade – que surgem muitas vezes fardadas e com armas nas mãos.

 

O aprendizado de Rogério Vieira começou cedo. Ele tinha dez anos quando…

 

…jogava bola na rua com amigos. Chegou um carro de polícia. Os policiais mandaram a gente encostar no muro, de mãos pra cima. Perguntavam: o que você tá fazendo aqui?, onde tá a maconha?, por que você não tá na escola?. Cada resposta, qualquer que fosse, era seguida de um tapa. Foram os primeiros tapas na cara que tomei na vida.

 

O relato cabe na boca de qualquer moleque das quebradas. Basta ser pobre e ter pele escura para virar alvo da violência policial. Os próprios órgãos de segurança registram: no Brasil, 80% dos mortos pela polícia são negros.

 

Neste impactante ensaio, Rogério Vieira resgata outra face cruel da realidade: jovens negros são baleados e morrem porque policiais veem como armas as ferramentas de trabalho ou objetos que carregam na mão.

 

Para compor seus retratos-denúncia, o artista usou como modelos seus amigos e conhecidos. As fotos de corpo inteiro, com luz natural, enquadram o cenário real em que esses jovens vivem.

 

Rogério Vieira vai na contramão da tendência que elege o preto e branco para dramatizar as fotos. Cada um de seus “alvos” conta uma história em sua cor real. Não a cor pictórica, falsificadora, mas a cor crua da verdade.

 

Também a cor da pele. Aquela que, neste pedaço desigual e racista de mundo, é a mais vulnerável – porque escura.

 

Se você focar nos olhos e buscar a expressão mais funda no rosto desses jovens, não encontrará ódio, revolta, medo ou submissão. Verá tristeza. Muita e dolorida tristeza.

 

Mérito de um fotógrafo maduro, sensível, atento ao seu lugar e ao seu tempo.

*A frase-título do ensaio é o refrão do rap “Estereótipo”, de MC Rashid.

 

Rogério Vieira

Iniciou sua carreira na fotografia em 2007, registrando as ruas de São Paulo, com sua câmera analógica. Em 2008, participou da exposição coletiva de comemoração aos dez anos do Festival Dulôco, promovido pelo Sesc e com apresentações de artistas do rap e do hip hop. Nos anos seguintes, dedicou-se inteiramente à fotografia, trabalhando em eventos sociais e corporativos. Ingressou no curso de fotografia na Universidade Paulista (Unip), em 2011, momento em que estabeleceu contato com novos conceitos fotográficos. A partir daí, sua trajetória profissional caminhou para outros rumos, ampliando o desenvolvimento de projetos autorais. Seu principal foco passa a ser a produção de retratos, alinhado às influências das ruas, com o uso da luz natural e luz artificial do flash, elementos fundamentais na construção da sua fotografia. Durante sua carreira, conquistou premiações, nomeações nacionais e internacionais e seu trabalho esteve presente em festivais de grande relevância, tanto na Europa quanto na América Latina.