Léu Britto

Já dizia o provérbio: se a vida lhe der um limão, faça dele uma limonada. É exatamente isso que apresento no ensaio fotográfico “A gambiologia da sevirologia”: como a população periférica desenvolveu estratégias para sobreviver e se adaptar às adversidades de um contexto de ausências.

Gambiarra, para nós – me incluo, pois nasci numa favela, a do Monte Azul –, nunca foi sinônimo de fazer as coisas malfeitas. Pelo contrário: é fazer o necessário para se adaptar e alcançar um propósito.

Superar as barreiras impostas pela ausência do poder público deu ao povo empobrecido a capacidade de se virar com o que tem em mãos, ou nos pés, para alcançar melhores condições de estrutura, sem esperar nada de instâncias governamentais.

Se não tem uma piscina, o povo cria uma. Falta ciclovia, andamos de bicicleta onde dá. Quando o caminhão de material de construção não chega até um barraco, no centro da favela, o vizinho faz o carreto no porta-malas do carro e ajuda a carregar os blocos. São inúmeros exemplos do cotidiano periférico em que a frase do naturalista Charles Darwin se aplica: “Não são as espécies mais fortes que sobrevivem, nem as mais inteligentes, e sim as mais suscetíveis às mudanças”. Nesse quesito, somos especialistas!

Se vira com o que tem!

Em seu livro Quarto de despejo: diário de uma favelada – até hoje sucesso de vendas em inúmeros países –, a escritora preta e semianalfabeta Carolina Maria de Jesus escreveu: “Eu não sou indolente. Há tempos que eu pretendia fazer o meu diário. Mas eu pensava que não tinha valor e achei que era perder tempo… Eu fiz uma reforma em mim. Quero tratar as pessoas que eu conheço com mais atenção. Quero enviar um sorriso amável às crianças e aos operários”.

Quando li esse trecho pela primeira vez, me identifiquei e pensei: será que estou fazendo registros inúteis sobre as favelas paulistanas? A inquietação dessa pergunta se dissipou após eu reler e perceber que não era em vão. Como Carolina afirmou, eu também me reformei e afirmei minha missão na fotografia: dar ainda mais vida para o gueto, por meio das minhas imagens; evidenciar como existe uma população ainda marginalizada, que resiste diariamente e luta pela sua sobrevivência.

Daí, em 2013, fui apresentado à sevirologia, quando cobri fotograficamente o aniversário de oito anos de resistência da Comunidade Cultural Quilombaque, em Perus, bairro da cidade de São Paulo. Lá, fui apresentado ao educador José Soró. Pra mim, a terminologia de se virar com o que temos à disposição nasceu com ele. Sua frase motivacional para manter todos firmes nas lutas populares era: “hoje a gente vai fazer a sevirologia na prática!”.

Outro integrante da Quilombaque, o articulador Cleiton Ferreira – o Fofão –, escreveu, em um artigo de junho de 2020 – parte do projeto Usina de Valores –, sobre a arte da sevirologia nos territórios em conflitos. “Ancorada nos pressupostos e fundamentos da visão sistêmica, foi criada uma metodologia multidimensional para diagnosticar, planejar e agir sobre a realidade, produzindo conhecimento para as pessoas aprenderem de modo processual e permanente. Ou seja, se você tem, você faz, se você não tem, você faz do mesmo jeito, VOCÊ SE VIRA!”.

É nois Q tá se arranjando memu – vivão e vivendo!

Experimente nascer Pobre, Preto e Favelado. Né vitimismo não, pois eu convido vocês, que pensam assim, a visualizarem essas imagens e tentarem se colocar no lugar dos milhões de brasileiros que vivem assim em todo território nacional.

Falem o que quiserem, porque o que é, é!

As periferias nascem em cima dos córregos, passando fome e degustando a miséria. Falta trabalho, o que leva muitos ao abandono e à violência. Somos corpos vendidos pela burguesia e pela mídia, que tenta nos traduzir como vagabundos desocupados que querem ter vida fácil entre becos e vielas, usufruindo somente dos auxílios “des-emergenciais” que chegam, quando chegam.

Não se iludam! Nóis que tamo aqui, lutando diariamente pelo pão nosso em casa, das pontes pra cá, somos resistência. Tenham certeza somente de que é a gambiarra do se virar no NÓIS POR NÓIS que faz acontecer as condições de entretenimento, lazer, cultura, arte, educação e direitos dos manos e minas.

Léu Britto
Maio, 2021


Co-fundador do DiCampana Foto Coletivo, com o qual atua desde 2016, Léu Britto nasceu na Favela Monte Azul, na zona sul em São Paulo. Autodidata, iniciou-se na arte da fotografia em 2007, registrando o Movimento Estadual da População em Situação de Rua, na Praça da Sé, no centro da cidade de São Paulo. Como fotojornalista, atuou junto a veículos como a Rede Brasil Atual, entre os anos de 2012 e 2013; e o Blog e a Agência de jornalismo das periferias – Mural, trabalho iniciado em 2010 e realizado até os dias de hoje. Como fotodocumentarista do setor cultural, realizou trabalhos para a União Popular de Mulheres e Agência Solano Trindade, entre 2013 e 2016; para o Projeto REDES e Festival Percurso, nas edições de 2013 a 2019; e para a 11ª Mostra Cultural da Cooperifa, em 2018. Seus trabalhos também ganharam visibilidade em 2017, com as exposições “MONOGaleria”, no Sesc Campo Limpo; e “Otros carnavales”, realizada em parceria entre a Mídia NINJA e a Rede Latino-Americana de Fotografia Coletiva.
?